8. ARTES E ESPETCULOS 10.10.12

1. TELEVISO  3 COMEDIANTES  PROCURA DE UMA DILMA
2. TELEVISO  MAIORES DE IDADE
3. LIVROS  ENTRE DOIS MUNDOS
4. LIVROS  PRESOS COM CHAVE
5. CINEMA  O CRIADOR LUTA COM A CRIATURA
6. MEMRIA  A MELHOR AMIGA  HEBE
7. VEJA RECOMENDA
8. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
9. J.R. GUZZO  O QUEIJO E A LEI

1. TELEVISO  3 COMEDIANTES  PROCURA DE UMA DILMA
O estilo discreto da presidente (sobretudo em comparao com seu antecessor) exige criatividade dos humoristas. Mas todas as stiras mostram-se simpticas a ela.
BRUNO MEIER

     Irritada com a inflao mensal, que passou de 6%, Dilma Rousseff telefona para o ministro da Fazenda, Guido Mantega. No satisfeita em cobri-lo de palavres, a presidente ainda faz ameaas: Eu sei onde voc mora, diz. E, em seguida, diante da reao do interlocutor: Guido, engole esse choro. Voc no tem que chorar, tem que resolver. A cena aparecia, em 2010, em um vdeo amador com um tosco cenrio caseiro que tentava reproduzir o gabinete presidencial. Bastou para popularizar, ao estilo viral tpico da internet  primeiro pelo YouTube, depois no site de humor Kibe Loco , um comediante mineiro at ento conhecido s em bares de Juiz de Fora, onde fazia shows de stand-up com imitaes das cantoras Ana Carolina e Maria Bethnia. Sempre gostei de imitar mulheres bem femininas, ironiza Gustavo Mendes, 23 anos. Alado ao elenco da Globo, o ator trabalhou na novela Cheias de Charme e no Casseta & Planeta Vai Fundo  no qual fez sua verso da presidente, batizada de Dilmandona. Na televiso, Mendes abandonou a linguagem chula que tornava seus esquetes na internet impagveis. Mas abusa da expresso no que se refere e do jeito duro e direto (ele diz ter se inspirado no Capito Nascimento, o truculento anti-heri de Tropa de Elite, para compor a personagem). Apesar dos traos caricaturais carregados, no  uma imitao agressiva. Mendes e os outros trs humoristas retratados nesta reportagem  dois comediantes televisivos e um satirista das redes sociais  mostram, na verdade, simpatia pelo alvo da pardia. O trao mais enfatizado por eles, alis,  percebido como qualidade por grande parte do eleitorado: o perfil de mulher austera, durona, que no transige com desvios.
O fato de Dilma ser discreta facilita a imitao. H uma curiosidade do pblico para saber quem  a mulher que est no poder, afirma Mendes. O contraste com o predecessor, nesse ponto, no poderia ser maior. Lula, o prprio, era nosso maior competidor, diz Claudio Manoel, do Casseta & Planeta. Apesar disso, a imitao de Lula por Bussunda  morto em 2006  era memorvel. As melhores pardias dos presidentes anteriores tambm foram do Casseta: o Viajando (ou, nos momentos acadmicos, Divagando) Henrique Cardoso, interpretado por Hubert, e o Devagar Franco, por Reinaldo. Hoje, com Dilma no Planalto, h uma concorrncia humorstica mais renhida. Mrvio Lucio, 36 anos, intrprete da Dilma do Chefe, no Pnico na Band, tambm faz o gnero durona  embora talvez com mais escracho. Sua personagem j passou at cantada no tucano Acio Neves (no um comediante que imitava Acio, mas o prprio senador). Ao contrrio de Mendes, que considera o estilo low profile da presidente uma chance de maior liberdade interpretativa, Lucio, que tambm j imitou Lula, se angustia com a circunspeco da mandatria: Dilma no sai da toca e no se mete em confuso. Lula me dava um leque maior de pautas. Eu fazia a festa com tanto escndalo, diz. Sua personagem  calcada no perodo em que Dilma foi ministra de Minas e Energia: J estava claro que ela era uma general. J Fabiana Karla, 36 anos, a Dil Maquinista do Zorra Total, na Globo, baseou sua imitao na observao atenta de Dilma durante a campanha eleitoral. Dos debates, a humorista absorveu a postura severa, com as mos cruzadas para trs, e o cacoete de molhar os lbios com a lngua. A nica comediante mulher a retratar Dilma se diz uma adepta do caco  os momentos em que o humorista improvisa suas falas. No entanto, para fazer Dil Maquinista, atm-se rigorosamente ao texto, pois receia interpretaes polticas indesejveis. Qualquer palavra ou entonao diferente pode dar outra conotao, pela qual no quero ser responsvel, diz. A personagem de Zorra Total  a mais suave das Dilmas televisivas. Fabiana j mandou flores ao Planalto, pelo aniversrio de Dilma Rousseff  e a presidente retribuiu com mais flores e uma cartinha de Natal para a atriz.
     A verso cmica mais original est no na TV, mas nas redes sociais. O estudante carioca de administrao Jeferson Monteiro, 22 anos, criou a Dilma Bolada, seguida por mais de 100.000 pessoas no Facebook e no Twitter. Por bolada, entenda-se cheia de si: na contramo do estilo reservado, essa falsa Dilma adora contar vantagem. Pontua seus textos  todos muito breves, como manda a etiqueta das redes sociais  com exclamaes do tipo Eta presidenta maravilhosa!. Dilma Bolada tem um cachorro, Boladinho, e transformou Marcela Temer  a estonteante mulher do vice, Michel Temer, que roubou a cena na posse presidencial  em sua domstica. O sucesso do perfil ajudou Monteiro a conseguir um emprego em uma produtora de filmes, na funo de agitar as mdias sociais. Mas ele ainda parece dispor de muito tempo livre: acompanha de forma exaustiva a agenda presidencial. O autoelogio hiperblico de Dilma Bolada at funciona como crtica ao pendor promocional dos governos petistas, com seu nunca antes neste pas. Mas ainda , no fundo, humor a favor. Tento passar o lado gestora da Dilma e deix-la mais simptica e popular, diz Monteiro, Dilma  diva. 

DILMA DO CHEFE
Mrvio Lucio, do Pnico na Band, da Bandeirantes.
Do Chefe  uma referncia a Lula  o humorista baseia sua imitao sobretudo no perodo em que Dilma Rousseff foi ministra do governo anterior. Explosiva, a personagem tem um jeito de general e rosna como um rottweilwer  mas j passou cantada no senador Acio Neves, convidando-o para ser seu primeiro-damo.

DILMANDONA
Gustavo Mendes, do Casseta & Planeta Vai Fundo, da Rede Globo.
A imitao surgiu em 200, no site de humor Kibe Loco, com espinafraes telefnicas dos ministros envolvidos em naracutaias. Pede pra sair, Orlando, gritava Dilmandona para o ento ministro Orlando Silva. Incorporada ao Casseta & Planeta (que volta ao ar em novembro), a personagem ficou mais comportada: ps de lado os palavres pesados.

DIL MAQUINISTA
Fabiana Karla, do Zorra Total, da Rede Globo.
A condutora do metr do Zorra  a verso cmica mais leve simptica da presidente. Faz uma crtica light, genrica.  assim, por exemplo, que ela responde a um personagem que anuncia que vai fumar um charuto fedorento em Braslia: Fique  vontade. L faz tempo as coisas no cheiram bem. Foi a nica imitadora a receber ateno da imitada: Dilma Rousseff mandou flores e uma carta para a atriz, no Natal de 2011.

DILMA BOLADA
Jeferson Monteiro, com 75.000 seguidores no Facebook e 62.000 no Twitter.
Criado por um estudante de administrao de 22 anos, esse perfil social no oficial apresenta uma Dilma brincalhona (#dilmoleka  sua hashtag favorita) e muito, muito convencida. Sou linda, sou diva, sou Presidenta. Sou Dima!, diz, na apresentao de sua pgina no Facebook. Adora esnobar a colega Cristina Kirchner, da Argentina.


2. TELEVISO  MAIORES DE IDADE
Com o glamour da moda e surpreendente bom humor, o documentrio About Face mostra como  envelhecer em uma indstria movida a juventude e beleza.

     Aos 81 anos, a americana Carmen DellOrefice  a modelo h mais tempo em atividade no mundo: est nas passarelas e em frente s cmeras desde 1946. Sua contempornea chinesa China Machado aposentou-se em 1962, mas garante que desde que retomou a carreira, h dois anos, aos 80, no lhe tem faltado trabalho. Apenas o depoimento dessas duas decanas j renderia um documentrio. Mas About Face: Supermodelos Antes e Agora (Estados Unidos, 2012), que estreia nesta segunda-feira (8) na HBO, rene outras dezessete mulheres que em algum momento foram consideradas padro de beleza  alm de ouvir pesos-pesados da indstria, como o estilista Calvin Klein e a pioneira agente de modelos Eileen Ford.
     No mesmo formato do trabalho anterior do diretor Timothy Greenfleld-Sanders  o documentrio em trs partes The Black List, sobre a comunidade afro-americana , About Face utiliza o fluxo dos muitos depoimentos para abordar, durante noventa minutos, tanto os aspectos glamourosos da profisso de modelo quanto aqueles pontos espinhosos que lhe do m fama. China, Pat Cleveland e Beverly Johnson  a primeira negra a sair na capa da revista Vogue  falam de preconceito racial. Lisa Taylor admite que o abuso de drogas ps fim  sua carreira de sucesso. Carol Alt lembra da fome que passou para poder desfilar em Paris. E Bethann Hardison se diverte com o alvio de sua me quando a viu em um comercial e finalmente se convenceu de que a filha no era garota de programa. Podem-se at fazer ressalvas ao enfoque ligeiro dado a esses assuntos  mas o tema maior do filme  mesmo a passagem do tempo em um meio onde novidade, juventude e beleza so moedas valiosssimas.
     Curiosamente, h poucas lgrimas em cena ou comentrios amargos, sempre um lugar-comum nesse tipo de reportagem. As beldades de ontem demonstram bom humor e franqueza ao assumir a idade (Christy Turlington, a mais nova da turma, tem 43 anos) e discorrer sobre cirurgias plsticas e outros procedimentos estticos. Algumas encaram o Botox como uma espcie de Prozac da imagem, enquanto a loira Jerry Hall, ex de Mick Jagger  que jura ainda estar invicta de plsticas , reclama seu direito a envelhecer.
     Apesar do elenco e do tom de reencontro de velhas amigas, About Face no  apenas bonito e inofensivo. E, no resumo, uma espcie de desmentido da tese de que, nesse ambiente, tudo  efmero e, a comear pelos indivduos, descartvel. Sim, houve infncias difceis, loucuras de juventude, lares desfeitos, infortnios e alegrias em maior ou menor grau. Porm todas parecem ter feito a mesma opo: seguir em frente. De salto alto,  evidente.
MARIO MENDES


3. LIVROS  ENTRE DOIS MUNDOS
Uma biografia do extraordinrio  e pouco lembrado  francs Alexis de Tocqueville, o aristocrata que desvendou os segredos da democracia.
CARLOS GRAIEB

     O francs Alexis de Tocqueville (1805-1859)  menos lembrado do que deveria. Para cada 100 pessoas que ouviram falar de Karl Marx, seu contemporneo, talvez haja uma ou duas familiarizadas com seu nome. Marx foi o terico do socialismo, um regime opressivo e sangrento. Tocqueville foi terico da democracia, o regime mais benigno j criado pelos homens. Ele foi ainda um raro animal poltico  aquele guiado pelo intelecto e pelos valores. No h muitos como ele. O americano Abraham Lincoln e o ingls Winston Churchill so nomes que vm  mente. Todos foram polticos-escritores, para os quais as duas atividades, em vez de existirem apartadas, formavam uma unidade, um todo indivisvel. Lincoln e Churchill conduziram seus pases em momentos de emergncia  a Guerra de Secesso e a II Guerra Mundial. Tocqueville tambm viveu numa era turbulenta, mas, embora tenha participado de uma comisso constituinte e ocupado o Ministrio das Relaes Exteriores, saiu desapontado das duas experincias. Como pensador, no entanto, foi de longe o mais profundo e original dos trs. Trata-se de um personagem imensamente cativante, e a biografia assinada pelo ingls Hugh Brogan, Alexis de Tocqueville  O Profeta da Democracia (traduo de Mauro Pinheiro: Record; 714 pginas: 69.90 reais),  o livro certo para apresent-lo.
     O incio do livro  bom demais para no ser citado: No  um paradoxo afirmar que o principal evento da vida de Tocqueville ocorreu antes de ele ter nascido: a Revoluo Francesa, que influenciou de forma decisiva quase tudo o que lhe aconteceria em seguida. Tocqueville pertencia  antiga nobreza da Normandia. Muitos de seus parentes foram guilhotinados na revoluo, e seus pais escaparam por pouco. A memria do Terror foi transmitida ao filho, e tornou-se um dnamo de seu pensamento. Tocqueville nunca deixou de ser um aristocrata. Isso se mostrava em seu comportamento. Seus modos foram um obstculo no Parlamento. Segundo o poeta alemo Heinrich Heine, que o viu em ao, suas falas eram frias como gelo esculpido, numa era que apreciava o discurso inflamado. Alm disso, Tocqueville empregou at o fim um tom elegaco para falar da velha ordem aniquilada pela revoluo. Mas ele no era um reacionrio. Desejava moldar, moderar, regular o mundo da poltica mas no atrasar o relgio da histria.
     O segundo evento mais importante na vida de Tocqueville foi sua viagem de nove meses aos Estados Unidos, em 1831. O pretexto era estudar as prises americanas. Mas Tocqueville j acalentava a ideia de um livro maior. E assim foi. Democracia na Amrica veio  luz em dois volumes. O primeiro, publicado em 1835, fez do autor uma celebridade internacional. O segundo seria lanado em 1840. Ambos compem um retrato multifacetado das instituies e da sociedade americana  e sugerem as possveis rotas de sua evoluo. O livro, no entanto,  antes sobre a democracia do que sobre os Estados Unidos. Tocqueville deixa claro no prefcio que escrevia pensando na Frana, que se dilacerava em busca de uma ordem calcada no princpio da igualdade. Ele indagava como esse governo democrtico poderia crescer ou se deformar, tendo em vista o valor que mais lhe importava: a liberdade.
     H um velho debate sobre a filiao poltica de Tocqueville. Seria ele um conservador ou um liberal? Seu segredo, porm, estava na equidistncia em relao s duas posies. A aristocracia j estava morta quando nasci, e a democracia ainda no existia, escreveu ele ao tradutor ingls de Democracia na Amrica. Meus instintos, portanto, no me empurravam cegamente em direo a nenhuma delas. Encontrava-me em perfeito equilbrio entre o passado e o futuro. Ele oferecia o bem-sucedido exemplo da Amrica aos que enxergavam na democracia um caminho, apenas mais longo que o da revoluo, para o caos. E se contrapunha queles para quem a mera adoo de eleies majoritrias garantiria a felicidade eterna. Tocqueville considerava sua maior intuio a ideia de que subjacentes  democracia existiam foras que poderiam faz-la degenerar em um novo tipo de tirania, uma tirania da conformidade, que levaria os cidados a submeter-se ao poder tutelar de um governo que prov suas necessidades, infantiliza-os e, enfim, os poupa do trabalho de pensar e da aventura de viver.
     A obra de Tocqueville no se resume a Democracia na Amrica. Ela abrange centenas de cartas, notas, discursos, ensaios e dois outros livros extraordinrios: Lembranas de 1848, que traz, na prosa mais perfeita alcanada pelo autor, um retrato cortante da vida poltica num tempo de crise, e O Antigo Regime e a Revoluo, um marco na historiografia francesa. Como mostra a biografia de Brogan, porm, as preocupaes de Tocqueville com os temas da liberdade e da tirania atravessaram seus anos. Ele viu com clareza a ameaa na doutrina socialista, e rejeitou-a enfaticamente como proposta de um novo tipo de servido, em que as liberdades seriam de toda forma mutiladas, podadas, restringidas. Em relao  democracia, contudo, ele manteve a sua saudvel ambivalncia, calcada na certeza de que ela  vulnervel e pode ser corrompida a partir de dentro. E quem vai negar  vivendo no Brasil  que esse  um pensamento para os tempos atuais?


4. LIVROS  PRESOS COM CHAVE
Drauzio Varella retrata a vida dos agentes penitencirios  que  quase to opressiva quanto a dos prisioneiros.

     Em uma das rebelies que enfrentou em sua longa carreira no sistema penitencirio do estado de So Paulo. Guilherme Rodrigues  que chegou a ser diretor do presdio do Carandiru  defrontou-se com dois marginais que se apresentaram ao lado de uma cabea decepada. Um deles estava agitado, falando compulsivamente, indcio claro do uso de drogas. Antes de ouvir as exigncias dos amotinados, Rodrigues fez as suas: No converso com drogado. Volto daqui a trinta minutos. Se esse maluco ainda estiver aqui, vou embora para casa. Quando retornou, o bandido maluco se fora, e pde ter incio o difcil trabalho de negociao. Esta  uma das histrias que o mdico-celebridade Drauzio Varella reuniu em Carcereiros (Companhia das Letras; 230 pginas; 33 reais). Revela certas qualidades essenciais para um agente penitencirio: sangue-frio, autoridade, capacidade de avaliar o perigo representado pelos detentos.
     Varella, 69 anos  e h 23 prestando servios mdicos em prises , tem admirao genuna por esses homens que arriscam a vida cotidianamente na panela de presso que so os superlotados presdios brasileiros. Em Estao Carandiru  com meio milho de livros vendidos , o autor fez a crnica do presdio onde, em 1992, 111 presos foram massacrados pela tropa de choque durante uma rebelio. O foco ento voltava-se sobretudo para os marginais. Carcereiros faz o perfil daqueles que detm as chaves da cadeia.  uma categoria vilanizada pela esquerda que idealiza o bandido como mera vtima do sistema social perverso. Varella, porm, lana um olhar compreensivo e compassivo sobre seus personagens (muitos dos quais so seus amigos prximos). Quase todos de origem humilde, buscaram na carreira penitenciria a estabilidade do emprego pblico, mas encontraram um trabalho opressivo e perigoso. No se confunda a perspectiva simptica do autor com condescendncia: ele fala, de forma direta e objetiva, de agentes corruptos, e da prtica de tortura nas prises. Em alguns momentos,  verdade, o mdico recorre ao clich: acusa a omisso da sociedade  essa entidade vaga e elusiva  como grande responsvel pelas mazelas prisionais. No geral, porm, Carcereiros descreve a realidade antes de julg-la.  um retrato cru do cotidiano murado de seus personagens. .
JERNIMO TEIXEIRA


5. CINEMA  O CRIADOR LUTA COM A CRIATURA
Em Ruby Sparks, um casal veterano dirige um casal jovem na histria de um escritor cuja mulher dos sonhos se torna real  e da vira um pesadelo.
ISABELA BOSCOV

     Aos 19 anos, Calvin publicou um romance que se tornou um clssico instantneo. Calvin agora tem 29 anos, e passou toda essa dcada em bloqueio criativo. Todo dia, pe uma nova pgina em branco na mquina de escrever  e nada. O esgotamento da inspirao agravou ainda as neuroses que, transpostas para o papel no fim da adolescncia, tanto impacto haviam causado. Exceto por seu irmo (Chris Messina), Calvin no tem amigos. Mantm distncia da me (Annette Bening), que virou riponga e casou-se com um tipo libertrio (Antonio Banderas). Diante de estranhos, Calvin trava. To profundo  seu desconforto com a vida que ele o transmitiu a Scotty, o co que adotou, por sugesto do psicanalista (Elliott Gould), para propiciar alguma interao com desconhecidos: agora, tambm Scotty tem medo do mundo. Surpreso por Calvin no perceber que transformou a psique do cachorro numa extenso da sua prpria, o psicanalista o incumbe de uma tarefa: em uma pgina, arrolar as razes pelas quais, apesar de ser como , Scotty merece ser amado. E, com essa pgina, algo fabuloso acontece: Calvin comea a escrever sem parar, descrevendo seu encontro com uma garota. Ruby, que aceita a ele e ao seu co sem reservas. Ruby  vivaz, curiosa, graciosa e cheia de imaginao. Acolhe o imprevisto. Usa meias coloridas com vestidos de vero, e tem imensos olhos azuis de boneca.  perfeita. E, certa manh, torna-se real tambm: Calvin a encontra em sua cozinha, vestindo uma de suas camisas e comendo uma tigela de cereal. No, ela no  uma alucinao, j que todos a veem e conversam com ela. Desfeita essa dvida, Ruby Sparks  A Namorada Perfeita (Ruby Sparks, Estados Unidos, 2012), que estreia nesta sexta-feira no pas, pe de lado as facetas fantasiosas desse entrecho para se ocupar de uma questo bem mais instigante: a maneira como um homem e uma mulher vencem  ou no  a distncia entre a idealizao que cerca o incio de um relacionamento e a realidade que pouco a pouco se impe.

     Ruby Sparks foi escrito por Zoe Kazan (neta do legendrio cineasta Elia Kazan), que interpreta Ruby, com a colaborao informal de seu namorado dos ltimos cinco anos, Paul Dano que faz Calvin. E  dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris, casados h algo como trinta anos, parceiros constantes de trabalho e, desde 2006, conhecidos pelo sucesso Pequena Miss Sunshine (que revelou Dano, o qual depois confirmaria todas as melhores suspeitas a seu respeito com seu desempenho estrondoso em Sangue Negro). Um casal veterano dirigindo um casal iniciante na histria de um par que, passado o encanto mgico (no caso, literalmente mgico) do primeiro encontro, pode ou no vir a conseguir estabelecer-se como casal: por trs do filme, assim, o que se tem  um desdobramento etapa por etapa do ponto do qual Zoe partiu em seu roteiro  o mito grego de Pigmalio, o escultor que no se interessa por nenhuma mulher de carne e osso, mas apenas pela esttua que esculpiu e  qual deu vida ao se apaixonar por ela. Porque Ruby, aqui, no ganha vida s no sentido de que passa da pgina ao mundo: ainda que Calvin a tenha criado, ele descobre, nem sempre com agrado, que ela existe e pensa por seu prprio direito. Para submet-la de novo s suas rdeas, ele passa ento a reescrever Ruby  e a vai transformando, de garota dos sonhos, num pesadelo: quanto mais tenta tornar Ruby ideal, mais pobre e artificial ela fica, e menos o satisfaz.
     Esse espirituoso enredo sobre as armadilhas da idealizao amorosa, portanto, vem entretecido em uma reflexo sobre um outro tipo de idealizao, a da criao artstica. Na vida em comum como na escrita de um romance, ou de um roteiro, no existe fertilidade sem esse embate, essa luta, entre o que se pretendeu criar e a criao em si, defenderam Valerie e Dayton em entrevista a VEJA. Considerando-se que, alm da convivncia, h poucos testes mais definitivos para um relacionamento que o trabalho a quatro mos, e que os diretores e os atores/roteiristas sobreviveram a ele com um filme feito em estado de graa, esses dois pares no podem estar to errados assim: o Pigmalio que vive em todo homem e toda mulher resiste, mas s tem a ganhar quando perde o controle de sua inveno.


6. MEMRIA  A MELHOR AMIGA  HEBE
Nas seis dcadas de uma carreira esfuziante feita de gargalhadas, gafes e diamantes, Hebe Camargo conversou com o pblico como quem recebe visita em casa.
MARIO MENDES

     Ela era como algum da famlia: geraes cresceram tendo a apresentadora loira como uma presena corriqueira na sala de casa. Hebe Camargo foi uma das primeiras estrelas surgidas na televiso brasileira e tambm uma das mais populares. S no participou da primeira e histrica transmisso no pas  o programa intitulado TV na Taba, na Tupi, em setembro de 1950  porque tinha compromisso com um namorado e inventou um sbito mal-estar para no comparecer ao evento. Sua amiga da vida inteira Lolita Rodrigues a substituiu cantando o Hino da TV Brasileira. No ar regularmente desde o incio dos anos 50 at 2011, quando encerrou seu programa, Hebe teve sua ltima participao na TV em 22 de agosto deste ano, ocasio em que conversou por telefone com o jornalista Carlos Nascimento durante a apresentao de O Maior Brasileiro de Todos os Tempos, no SBT, e reclamou dos salrios atrasados na Rede TV!, sua ltima emissora, da qual se desligaria em 17 de setembro. Dez dias depois desse rompimento, o SBT divulgou nota anunciando a volta da apresentadora ao canal de Silvio Santos. Ficou como um gesto apenas simblico: Hebe morreu, aos 83 anos, na manh do sbado 29, de um cncer na regio abdominal que enfrentava
desde 2010. Estava em casa, junto de seu filho nico, Marcello Camargo, do sobrinho Claudio Pessuti e sua mulher, Helena Caio, e de duas enfermeiras. Ao longo dos ltimos 32 meses, Hebe passou por trs cirurgias e cinco tratamentos quimioterpicos. Desde maro deste ano, foi internada pelo menos sete vezes. Passava quase todo o tempo deitada e, trs dias antes de sua morte, seu estado de sade se agravou drasticamente. 
     Hebe foi um desses fenmenos do showbiz no muito apreciados pelos crticos: era uma cantora apenas razovel e no possua nenhum outro talento artstico especial. O pblico, porm, a adorava. Exuberante em figurinos espetaculosos e penteados barrocos, ela precisava s de algum com quem conversar em cena, uma gargalhada e duas ou trs gafes simpticas  e pronto, a plateia estava dominada. Eu sou na tela a mesma Hebe da vida. No mudo em nada, trato as pessoas diante das cmeras como fao em casa ou na rua, disse a VEJA em 1969, quando j era um dos quatro maiores salrios da TV, ao lado de Chacrinha, Dercy Gonalves e Silvio Santos. Na definio do socilogo Sergio Miceli em A Noite da Madrinha  o principal estudo acadmico dedicado  apresentadora , Hebe era uma mescla de rdio, chanchada e boate, universos e linguagens dos quais derivou sua cancha, e mantinha com seu pblico um legtimo pacto afetivo. Hebe confirmou essa observao em outra entrevista a VEJA, quando completou 55 anos de TV: O que eu mais sei  fazer o auditrio rir das minhas besteiras e voltar para casa feliz. (Hebe, alis, foi a mulher que mais vezes esteve nas Pginas Amarelas desta publicao: em 1973, 1987, 1994 e 2005.) Segundo disse a VEJA o sobrinho e assessor da apresentadora Claudio Pessuti, a famlia ainda no decidiu que destino ser dado s joias e aos figurinos que tanto encantavam as fs.
     Hebe Camargo Ravagnani nasceu em Taubat, no interior paulista, em 8 de maro de 1929. Filha de um msico e de uma dona de casa, comeou a trabalhar aos 15 anos, formando uma dupla caipira com sua irm Stella. Rapidamente passou a se apresentar sozinha em programas nas rdios de So Paulo e do interior e tambm em festas e boates. Com bom trnsito no meio artstico paulistano, ela estava no grupo que foi ao Porto de Santos, em 1950, receber os equipamentos que iriam para os estdios da TV Tupi, no bairro do Sumar, em So Paulo. Foi l que recebeu o convite do empresrio Assis Chateaubriand, dono da emissora, para cantar o tal hino afinal cedido a Lolita Rodrigues. Mas a Hebe loira, risonha e falante que se tornaria clebre nasceu mesmo em 1955, com o programa de variedades e entrevistas O Mundo  das Mulheres, na TV Paulista. No incio dos anos 60, na mesma emissora, passou a comandar um programa nos moldes dos talk shows americanos. Foi ento que encontrou o sof que transformaria em seu trunfo por mais de cinco dcadas. Casou-se em 1964 com o empresrio Dcio Capuano, pai de seu filho, Marcello. Em 1966, estreou um programa de entrevistas, aos domingos, na TV Record, ento campe absoluta de audincia. Um dos passatempos da imprensa era comparar a vpida e monoglota Hebe  atriz Bibi Ferreira, que, no comando de um programa semelhante na TV Excelsior, adorava conversar com intelectuais, s vezes em ingls ou francs fluentes. A despeito da caoada, os telespectadores de Hebe se mantinham fiis. Meu programa  popular, e o pblico no me aceitaria muito sbia e sofisticada, pontificava a apresentadora. Em 1971, separou-se de Capuano e, dois anos depois, casou-se com o empresrio Lelio Ravagnani, com quem viveria at a morte dele, em 2000.
     A terceira dcada de Hebe na TV coincidiu com o advento da cor e com mudanas radicais no cenrio das comunicaes no Brasil, das quais a mais decisiva foi a ascenso da Rede Globo. Hebe trocou a Record, j em decadncia, pela Tupi e, em seguida, pela Band. Apesar da dificuldade crescente dessas emissoras no embate com a Globo, ela era ento a primeira-dama inconteste do vdeo.  dessa poca tambm sua muito discutida amizade com Paulo Maluf, a quem apoiou sem reservas at os anos 2000, quando os escndalos envolvendo o ento prefeito de So Paulo, Celso Pitta (1946-2009), protegido de Maluf provocaram o rompimento. A amizade dele era interesseira, alegou.
     Em 1986, ao estrear no SBT, Hebe conheceu seu perodo de maior prestgio. Sentar-se no sof da Hebe passou a ser indicativo de sucesso e celebridade. O formato do programa de variedades e bate-papo foi, porm, tornando-se antiquado. Ao longo dos anos 2000, a audincia minguou. Hebe ento utilizou a seu favor as prerrogativas da idade avanada, dando rdea solta a seu jeito despachado e distribuindo beijos na boca de seus convidados (o famoso selinho da Hebe, que veio se juntar a outras marcas registradas, como os bordes graciiiinha! e lindo de viver!). Em 2010, deixou o SBT depois de 24 anos, em razo de divergncias com Silvio Santos, que sempre mudava sem aviso o horrio de seu programa. Na mesma poca, recebeu o diagnstico de cncer, que encarou com seu otimismo habitual. Enfrentou a quimioterapia em pblico, posou de cabea raspada para a capa de VEJA SO PAULO e negociou sua ida para a Rede TV!. Com sua morte, encerra-se a era dos apresentadores que, mais do que animar o auditrio, se tornavam amigos ntimos do pblico sempre com tempo para jogar conversa fora, e para consolar e distrair com uma gargalhada.

NAS ONDAS DO RDIO  Uma Hebe ainda adolescente no programa Brigada da Alegria, em Marlia, no interior de So Paulo, em 1945. A ento cantora j apresentava os traos que a fariam famosa: o sorriso permanente no rosto e os figurinos apurados. A cabeleira loira viria bem mais tarde. Em uma entrevista, ela disse quem na poca, queria se parecer com a estrela Rita Hayworth.

OITENTINHA  Em 2009, aos 80 anos da apresentadora foram celebrados com todos os fogos de artifcio em festa na Disney World, em Orlando. Foram cinco dias de comemorao, com desfile na parada do parque temtico  ao lado de Mickey e Minnie , registro para o programa do SBT e invaso da turma do Pnico.

BRANCO TOTAL RADIANTE  O pblico de Hebe nunca se cansou de suas extravagncias. Para a estreia na Rede TV!, ela escolheu um modelito mezzo merengue, mezzo Las Vegas, reminiscente de Evita Pern em noite de gala. Misturou renda com plumas e diamantes de fazer inveja a Liz Taylor.

MELHORES AMIGAS  Com as atrizes Nair Bello (morta em 2007) e Lolita Rodrigues, uma amizade nascida nos primrdios da televiso. Inseparveis, elas deram uma entrevista antolgica ao Programa do J, em 2000, e contaram que procuravam no ir a velrios juntas porque quando se reuniam as gargalhadas eram inevitveis.

COM REPORTAGEM DE ADRIANA DIAS LOPES


7. VEJA RECOMENDA

DISCOS
BI, KEVIN JOHANSEN + THE NADA (S0NY)
 O cantor e guitarrista Kevin Johansen  um artista multinacional. Nasceu no Alasca, filho de pai americano e me argentina. Passou a infncia e a adolescncia em Buenos Aires e, no incio dos anos 90, mudou-se para Nova York, onde tocou em locais como o CBGB, um dos templos do punk nos Estados Unidos. As andanas por mundos to diversos  e aqui se inclui uma recente paixo pela msica brasileira  transformaram as composies de Johansen. Identificam-se aqui e ali um ou outro estilo (em especial, o folk de vrias nacionalidades), mas sua msica no tem uma caracterstica marcante do cancioneiro argentino, americano ou brasileiro. A criatividade dos arranjos ajuda a compor esse carter cosmopolita, como se ouve na verso tangueira de Everybody Knows, de Leonard Cohen, com participao da Orquestra El Arranque, e em Apocalypso, que traz como convidada uma Daniela Mercury sem exageros vocais. Bi foi lanado na Argentina como lbum duplo. Aqui, optou-se por embolar o repertrio dos dois discos num nico CD simples, com o corte de algumas canes. O delito da gravadora compromete a unidade do lbum. Mas a audio das canes individuais  compensadora.

MY HEAD IS AN ANIMAL, OF MONSTERS AND MEN (UNIVERSAL)
 O sexteto Of Monsters and Men surgiu na Islndia por um capricho geogrfico. Seus rocks grandiloquentes, suas canes de refros pegajosos e o casamento das vozes de Nanna Brynds Hilmarsdttir e Ragnar Prhallsson o colocam muito mais prximo do canadense Arcade Fire e de certo rock alternativo americano do que dos experimentos de compatriotas como Bjrk e Sigur Rs. O grupo ganhou os holofotes internacionais h dois anos, quando venceu um concurso em seu pas natal. A participao da banda no festival alternativo South by Southwest, em Austin, nos Estados Unidos, no incio do ano, fez com que as gravadoras entrassem num leilo pelo passe do Of Monsters and Men (que, alis, est escalado para a verso brasileira do festival Lollapalooza, em maro de 2013). Em My Head Is an Animal, o primeiro disco do grupo, as letras padecem de um certo ecologismo new age, tratando de rvores falantes e seres mgicos  um negcio meio eu acredito em duendes. Mas as vozes de Nanna e Prhallsson vo bem tanto em composies singelas (Slow and Steady) quanto em canes de orquestrao grandiosa (Your Bones).

CINEMA
ROTA IRLANDESA (ROUTE IRISH, INGLATERRA/FRANA/ITLIA, 2010. J EM CARTAZ EM SO PAULO E EM BREVE EM OUTRAS CAPITAIS)
 O mercenrio Frankie, ex-Foras Especiais britnicas, morreu de forma brutal ao ser atingido pelos explosivos detonados por insurgentes na Rota Irlandesa  o perigosssimo trecho de estrada entre a Zona Verde de Bagd, onde os ocidentais se concentram, e o aeroporto. No velrio, em Liverpool, Fergus (Mark Womack) est consumido pela culpa: foi ele quem ofereceu ao amigo de infncia o emprego em uma terceirizadora de segurana no Iraque. De incio, portanto, parece irracional a insistncia de Fergus em que a morte de Frankie tenha sido na verdade um homicdio planejado. Mas,  medida que ele e a viva, Rachel (Andrea Lowe), tentam recriar as ltimas semanas de vida de Frankie, vo sendo expostos os meandros das complicadas e s vezes dramticas relaes entre essas foras armadas privadas e os iraquianos que elas patrulham. Rota Irlandesa traz o diretor ingls Ken Loach no mximo de seu engajamento e indignao  e de sua potncia narrativa. Lindamente interpretado por Womack, Fergus  uma figura trgica por excelncia e um emblema em nada simplificado da sensao de bancarrota moral que acomete tantos dos veteranos da Guerra do Iraque.

PROCURANDO NEMO 3D (FINDING NEMO 3D, ESTADOS UNIDOS, 2012. ESTREIA NESTA SEXTA-FEIRA NO PAS)
 O peixe-palhao Nemo  um sobrevivente: de 400 ovas, s aquela que lhe daria origem sobreviveu ao ataque de uma barracuda  que tambm matou sua me. Compreende-se, portanto, que seu pai, Marlin, seja to superprotetor. Com uma deficincia numa das nadadeiras, Nemo acaba capturado por um mergulhador e vai parar no aqurio de um dentista em Sydney, na Austrlia. Marlin ter de atravessar mares ameaadores para, na companhia da desmiolada peixe Dory, reencontrar seu nico filho. Lanado em 2003 pelo estdio Pixar, Procurando Nemo faturou 867 milhes de dlares na bilheteria mundial e abocanhou o Oscar de melhor animao. E ganha agora sua verso em 3D, oportunamente estreando no Brasil no Dia das Crianas. A Pixar limitou-se a converter o filme para o novo formato. No h cenas extras  felizmente: Procurando Nemo  uma fbula irretocvel. Seus cenrios marinhos, agora com nova profundidade, so deslumbrantes, e h dilogos cmicos impagveis (em especial, Dory tentando se comunicar na lngua das baleias). Crianas e adultos comovem-se com o esforo de Marlin para realizar o impossvel  e tambm com a determinao de Nemo para, mais uma vez, sobreviver.

LIVRO
A VIDA COMO ELA ... EM 100 INDITOS, DE NELSON RODRIGUES (NOVA FRONTEIRA; 434 PGINAS; 49,90 REAIS)
 Nos arquivos da Biblioteca Nacional, encontram-se exemplares de jornais cariocas dos anos 50 e 60 com certas pginas arrancadas. Esses buracos so o testemunho do sucesso alcanado pelos contos de Nelson Rodrigues. Reunidas na clebre coluna A Vida Como Ela ..., suas histrias conquistaram de imediato o pblico  e o fenmeno se repetiu com a adaptao para a TV, produzida pela Rede Globo na dcada de 90. No ano do centenrio de Rodrigues, a antologia original, coligada pelo prprio em 1961, acaba de ganhar relanamento. Melhor ainda, chega s livrarias essa espcie de verso alternativa, composta de contos inditos em livro e garimpados no acervo dos jornais. Obsesso, cime, adultrio e taras inconfessveis  tudo embebido em uma morbidez extasiante  emergem dessas pginas. Do marido que gosta de apanhar de chicote aos cnjuges trados que esperam o momento de aplicar sua vingana vil, eis aqui um retrato do carter brasileiro mais eloquente que qualquer tratado sociolgico.


8. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
3. A Dana dos Drages  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
4. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA 
5. Inverno no Mundo  Ken Follett. ARQUEIRO
6. Um Porto Seguro  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO 
7. A Guerra dos Tronos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
8. O Festim dos Corvos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
9. A Fria dos Reis  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
10.  A Tormenta de Espadas  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 

NO FICO
1. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
2. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD 
3. No H Dia Fcil  Mark Owen e Kenin Maurer. PARALELA 
4. As Melhores Receitas do Que Marravilha!  Claude Troisgros. GLOBO 
5. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia  Luiz Felipe Pond. LEYA BRASIL
6. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil  Leandro Narloch. LEYA BRASIL 
7. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO
8. O Pas dos Petralhas II  Reinaldo Azevedo. RECORD
9. Nunca Fui Santo  Marcos Reis e Mauro Beting. UNIVERSO DOS LIVROS 
10. One Direction  Danny White. BEST SELLER

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Mentes Brilhantes  Alberto DellIsola. UNIVERSO DOS LIVROS 
2. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
3. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
4. Feridas da Alma  Padre Reginaldo Manzotti. AGIR
5. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE 
6. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
7. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
8. A Menina do Vale  Bel Pesce. CASA DA PALAVRA 
9. Mentes Geniais  Alberto DellIsola. UNIVERSO DOS LIVROS
10. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. EDIOURO


9. J.R. GUZZO  O QUEIJO E A LEI
     Estaria a presidente Dilma Rousseff violando a lei se comesse uma fatia de queijo de minas?  perfeitamente possvel que sim, pois ela tem de obedecer ao que o governo permite ou probe que os brasileiros ponham na boca ao fazer uma refeio. Pelo bom-senso mais elementar, a presidente da Repblica deveria ter o direito de comer em paz o seu queijo  sem precisar, antes, consultar o advogado-geral da Unio para saber se isso est ou no dentro da legalidade. Mas o Brasil  o Brasil. Aqui, entre outros prodgios da lei, um papagaio tem de ser submetido a autpsia quando morre, para esclarecer suspeitas de alguma infrao sanitria  e num pas onde se exige um negcio desses, e as autoridades entendem que s existem dois tipos de coisas na vida, as obrigatrias e as proibidas, sempre  bom perguntar tudo. No caso do queijo mineiro, por exemplo, nada  to simples como parece. A rigor, ele praticamente no pode ser comido fora do territrio de Minas Gerais, pois tem de respeitar o Regulamento da Inspeo Industrial e Sanitria de Produtos de Origem Animal  e cumprir as exigncias feitas ali, ao longo de 900 artigos,  mais do que promete a fora humana.

     Acredite-se ou no, o regulamento foi criado por um decreto do presidente Getlio Vargas, em 1952, e est em vigor at hoje, como lembrou recentemente o suplemento de comida de O Estado de S. Paulo. Na verdade,  nele que se sustenta toda a fiscalizao atual dos alimentos que vm de qualquer bicho existente sobre a face da Terra  piorada,  claro, pelo tsunami de novas regras criadas de l para c.  uma coisa to velha que s os brasileiros com mais de 60 anos de idade tinham nascido quando o decreto comeou a valer., tambm, um momento inesquecvel do estado brasileiro em ao  esse estado que pretende saber tudo o que  melhor para voc. O regulamento em questo, por exemplo, achou necessrio explicar o que  um queijo  um produto de formato cilndrico, com untura manteigosa e dotado de buracos em cabea de alfinete.  uma sorte, realmente, que o governo tenha pensado nisso: graas  sua sabedoria, nenhum cidado corre hoje o risco de ver um queijo e no saber o que  aquilo. O problema real comea quando os escreventes da administrao pblica decidem o que se pode fazer ou no com um queijo canastra, digamos, e uma poro de outras coisas boas.
     Para sair de Minas, o queijo tem de receber um carimbo de autorizao do SIF, ou Servio de Inspeo Federal, que faz parte do Mapa, ou Ministrio da Agricultura, Pecuria e Abastecimento, e no incomodar a Anvisa, ou Agncia Nacional de Vigilncia Sanitria, que  do MS, ou Ministrio da Sade; tambm precisa fazer o que manda o Dipoa, ou Departamento de Inspeo de Produtos de Origem Animal, e o Sisbi-Poa, ou Sistema Brasileiro de Inspeo de Produtos de Origem Animal, ambos do mesmo Mapa, e obedecer  vigilncia sanitria das prefeituras. Deu para entender? Tanto faz. Mesmo que entendam, os pequenos produtores  de cujas queijarias sai quase todo o queijo mineiro que merece ser chamado assim  no tm a menor condio de cumprir as exigncias de uma manada de burocratas desse tamanho. O resultado  que nos grandes centros consumidores o produto legtimo de Minas quase s pode ser encontrado no comrcio clandestino: os supermercados e o varejo legalizado no se arriscam a comprar queijo informal. Os produtores artesanais deixam de ganhar milhes de reais por ano, pois no conseguem vender o volume que poderiam. Os consumidores deixam de comprar, pois no conseguem achar  venda o queijo que querem comer. Quem ganha alguma coisa com isso?
     Por causa desse mesmo sanatrio geral, os restaurantes brasileiros esto proibidos de servir frango ao molho pardo, ou galinha de cabidela. No podem matar, eles mesmos, o frango e separar na hora o sangue, ingrediente essencial da receita. Tem de comprar frango oficial, nos abatedouros oficiais e ali  proibido vender sangue fresco. (No est claro se o cidado pode comer um frango ao molho pardo feito na cozinha da prpria casa.) As patrulhas da Anvisa tambm probem a fabricao de goiabada, ou qualquer outra coisa, em tachos de cobre, como sempre se fez no Brasil. No permitem, alm disso, o uso de colheres de pau na preparao de alimentos, e mostram-se indiferentes ao fato de que 70% de tudo o que se come no Brasil vem dos pequenos produtores  os menos capazes de cumprir as ordens do governo.
     Preste ateno no que anda comendo, presidente Dilma. Pode ser ilegal.


